
Tem horas que, ao escutar música, eu me pego pensando coisas absurdas. Por exemplo: como seria um disco dos 8 Batutas, o famoso grupo de Pixinguinha e Donga, se eles estivessem gravando hoje seu primeiro disco? Agora eu já tenho uma idéia: seria algo bem parecido com este disco de estréia do Pagode Jazz Sardinha's Club.
Não falo isso para chocar a audiência. A idéia é até bastante sensata. Mesmo com relação ao nome da banda: os 8 Batutas bem que poderiam se chamar Sardinha's Club. Nos anos 20, quase todo grupo musical carioca podia ser chamado de Jazz Band. Além disso, os times de futebol ainda se intulavam clubs, e pagode e sardinha eram artigos de primeira necessidade. Porém, mais importante do que nomes, é a coincidência entre as estratégias musicais empregadas pelas duas bandas: não importa o que se mistura, o importante (o essencial) é misturar. Do híbrido, nasce o batuta, o balanço, tudo aquilo que encanta nossos ouvidos e tchans (sacode!). Os 8 Batutas tocavam samba, maxixe, polka, choro, marcha, tanguinho, cateretê. Não tinha relevância a procedência geográfica, dentro ou fora do território nacional, desses ritmos. O Sardinha's Club toca samba, maxixe, funk, choro (e reggae-choro - que achado maravilhoso!), jazz e jongo. Isso tudo contrariando, muito de propósito, o mandamento nacionalista que pensa determinar (com uma camisa de força - nem um pouco listrada) qual é a verdadeira musica brasileira.
Mistura e manda! Quem mistura é quem manda na batucada. Nos anos 70, Paulo Moura criou sua Confusão Urbana, Suburbana e Rural. Duas décadas depois, o Sardinha's Club lança este disco que, para voltar a falar de nomes, poderia muito bem se chamar Confusão Global, Local e Periférica. Uma confusão que não é de hoje, mas que está na base há séculos do melhor que se fez e tem feito em musica brasileira. Mestres do transmestiço, o Pagode Jazz Sardinha's Club conclama: Longa Vida à Confusão! PS: Pode haver maior delícia na vida do que um harmonioso solo de trombone carioca por cima dessa confusão toda?
O CD & Outras Gravações
Lançado em julho de 1999 e distribuído pela Rob Digital, o CD de estréia do Sardinha's Club, foi considerado um dos grandes lançamentos do ano pela imprensa e pelo meio musical. Três meses depois foi licenciado para lançamento no Japão pela Nippon Crown Records.
A faixa-título do CD foi indicada para Melhor Música Instrumental - Prêmio Sharp 1999, na versão gravada pelo grupo Nó em Pingo d'Água (CD Nó na Garganta), foi gravada ainda pelo grupo Rabo de Lagartixa (CD Rabo de Lagartixa) e foi cantada em show por Leila Pinheiro, em versãocom letra de Mauro Aguiar, recentemente lançada no CD Sardinhas. Além disso, o Pagode Jazz participou dos CDs Trombone do Brasil (de Roberto Marques), É o Violão do Brasil (de Gabriel Improta) e Fora do Esquadro, de Rodrigo Lessa.
Em 2001 foi lançado o CD Rumos Musicais 99 (Instituto ItaúCultural), que inclui duas faixas do grupo gravadas ao vivo: Transmestiço e Maxixe, Paizinho!!!. O grupo tem ainda faixas lançadas em coletâneas no Chile, Inglaterra e Japão.
1. Transmestiço (6:12)
2. Noites de Gafuá (5:52)
3. Pagode Jazz Sardinha's Club (5:15)
4. Carinhoso (5:16)
5. A História de um Valente - parte 1 (2:10)
6. A História de um Valente - parte 2 (3:43)
7. Fertilidade (3:35)
8. Reggae por Nós (3:59)
9. Maxixe Paizinho - parte 1 (2:46)
10. Maxixe Paizinho - parte 2 (1:43)
11. Luz Negra (5:10)
12. Jongo Aliança (4:52)
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